Pelo direito de ter uma arma
Desde 2008 somente 784 armas de fogo foram entregues voluntariamente às autoridades locais graças ao Estatuto do Desarmamento. No mesmo período, no entanto, 10 mil armas foram registradas junto à Polícia Federal de Sorocaba
A comoção causada pelo massacre na escola do Rio de Janeiro se espalhou pelo Brasil e levantou a possibilidade da realização de um plebiscito no qual a população decidiria se o cidadão comum poderá ou não continuar comprando armas de fogo.
Levantamento da Polícia Federal de Sorocaba, no entanto, mostra que nos últimos anos existem muito mais pessoas tentando garantir o direito de possuir uma arma, do que aquelas que querem se livrar de seu armamento.
Entre 2008 e abril de 2011 a delegacia da Polícia Federal de Sorocaba registrou a entrega voluntária de 784 armas de fogo, entre revólveres e espingardas de variados calibres. No mesmo período, foram registradas 10 mil armas de fogo na cidade. O dado que mais chama a atenção é o de que mais de 90% dos armamentos já pertenciam aos donos dos registros, que buscaram a documentação necessária para legalizarem as armas e poderem continuar mantendo-as em suas casas.
"O Estatuto do Desarmamento veio com uma campanha forte para que as pessoas entregassem suas armas. Muitas tinham em casa armas pertencentes a seus pais ou parentes e na primeira chance se livraram dessa herança. Outras, no entanto, quiseram ratificar seu desejo de mantê-las, legalizando-as", conta o delegado Vinícius Loque Sobreira, da PF.
Pela defesa da família /O engenheiro Francisco Santucci, 54 anos, herdou do avô o gosto pelas armas de fogo. No cofre de sua casa há dois revólveres calibre 38, sempre municiados e com a manutenção em dia apesar dos raros disparos.
Francisco comprou o cofre para garantir que o filho de 9 anos não tenha acesso, mas não abre mão do armamento. "Quero proteger minha casa e minha família caso for necessário. A polícia não conseguirá me prover uma resposta rápida se eu acordar no meio da noite com um bandido dentro de casa", justifica.
A comerciante Fabiana Garcia de Godoy, 29 anos, jamais havia atirado com uma arma até conhecer o marido Jeferson Aparecido Amorim, 32, que há nove anos tornou-se praticante de Tiro Prático (esporte no qual atiradores devem acertar alvos no menor tempo possível).
Fabiana também passou a treinar e hoje o casal é sócio de um clube de tiro de Sorocaba frequentado por cerca de 300 praticantes.
"Aqui as pessoas aprendem a técnica e a ter controle sobre a arma. Vêm pelo prazer de atirar", afirma Jeferson.
Questionado sobre a possibilidade de uma pessoa buscar um curso de tiro visando se preparar para um ataque a inocentes, o comerciante defende seu ponto de vista: "Uma pessoa que aprende a dirigir em uma autoescola também pode jogar um carro contra uma multidão, como já acompanhamos pelos jornais. Culpar as armas pela violência é minimizar o problema."
Cristiano Alves Carlos, campeão brasileiro de tiro, explica que os clubes fazem uma análise minuciosa sobre os fatores que levam uma pessoa a querer aprender a atirar. "Não é só pagar e sair atirando. Ele receberá todo o conhecimento teórico e, se após avaliação se mostrar apto a manusear uma arma, poderá começar a praticar", explica. "Quem quer aprender a atirar para sair matando pessoas não procura arma em loja nem curso de tiro, mas sim busca atingir seu objetivo agindo à margem da lei."
Comprar arma está mais complicado
Para comprar uma arma o pretendente deve cumprir uma série de trâmites burocráticos (veja quadro na página ao lado) e passar por uma avaliação psicológica e prática que prove sua capacidade de manusear um armamento. Além de dificultar a compra, o endurecimento da legislação fez com que a maioria das lojas que vendiam armas desaparecesse do mercado.
Miguel Affonso Ferreira de Castilho Filho, delegado e professor de tiro e armamento da Academia da Polícia Civil, relembra que há 15 anos era possível comprar armas de fogo em lojas de caça e pesca de Sorocaba. "As restrições hoje são tão grandes, que deixou de ser vantajoso às lojas vender armas", afirma.
O delegado explica que o acesso restrito às armas se estende às munições. "Hoje todos lotes de munição são identificados. Pela numeração gravada em um projétil disparado é possível saber quem efetuou a compra e até qual o comerciante que realizou a venda. Tudo é rastreável."
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Estatuto do Desarmamento
A possibilidade de desarmamento é permanente. Quem tiver um arma em casa, com ou sem registro, e não a quiser mais pode entregá-la na delegacia da Polícia Federal de Sorocaba. Antes de ir à unidade, no entanto, é preciso imitir uma guia de tráfego para o armamento no site www.dpf.gov.br
A voz do povo
Após o ataque a tiros no Rio, o presidente do Senado, José Sarney, levantou a possibilidade de realizar um plebiscito nacional sobre o desarmamento. Em 2005 já foi realizado um plebiscito nos mesmos moldes. Naquela ocasião 63% dos votos válidos decidiram que armas e munições deveriam continuar a ser vendidas.
PF liberou apenas 6 portes desde 2009
Polícia analisa justificativas de pessoas que querem circular com armas de fogo, mas rigidez no critério dificulta concessão da autorização
Desde o começo de 2009 a delegacia da Polícia Federal de Sorocaba concedeu apenas seis portes de armas para moradores de Sorocaba, que com o documento ganharam a autorização para transitarem armados em tempo integral. Por lei o porte é proibido, podendo ser concedido apenas em casos excepcionais.
O delegado Vinícius Loque Sobreira afirma que a maioria das pessoas quer andar armada alega querer garantir a segurança de sua família, ou mesmo estar sofrendo ameaças de morte. "Mas isso não é justificativa. Analisamos a real necessidade do porte para um civil. Por ser proibido o porte não é um direito, mas uma exceção", explica o delegado.
Pelo Estatuto do Desarmamento policiais, autoridades do Judiciário, agentes prisionais, entre outras categorias que podem enfrentar uma vulnerabilidade diante da violência em razão de sua profissão têm direito ao porte.
O delegado explica que o fato de alguém ter uma arma registrada e com a documentação em dia lhe garante apenas o direito de manter uma arma em casa. "A pessoa pode inclusive usar a arma em uma situação de risco, mas a partir do momento em que essa arma é empregada ou simplesmente transportada além do seu portão, passa a ser crime."






