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EUA e Otan usam segurança privada no Afeganistão

 

"Terceirização" garante trânsito livre aos comboios para as tropas

 

Cabul - Comédia pastelão é o que lembram as informações sobre a epopéia que escrevem nas montanhas deste país as tropas de ocupação dos EUA e da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan). Com a bombástica declaração do presidente-fantoche afegão, Hamid Karzai, segundo a qual dentro de quatro meses serão retiradas do Afeganistão todas as empresas privadas de segurança que caíram como gafanhotos sobre o país, embolsando bilhões de dólares do erário norte-americano, uma onda de pânico dominou Washington.

 

Realmente, uma proibição unilateral das atividades das empresas de segurança privada provocará um verdadeiro terremoto. Paralisará totalmente a corrente de abastecimento das tropas - desde alimentos até munições - e o avanço dos veículos blindados, escreveu, caracteristicamente, no jornal francês Liberation, George-Henry Brisset de Vallon, especialista em empresas internacionais prestadoras de serviços de segurança privada. "Não resta a menor dúvida de que o presidente afegão e seus amigos tirarão proveito desta chantagem", sustentou.

 

O aspecto engraçado desta história não é o fato de que Karzai pode expulsar as empresas de segurança privada norte-americanas e britânicas que operam no Afeganistão. Isto é sério, mais é o de menos. Aquilo que preocupa o Governo dos EUA e a Otan é o que farão se Karzai proibir também a ação das empresas afegãs de segurança privada que atuam no país.

 

Porque os afegãos, assim que constataram os bilhões de dólares que embolsavam as empresas estrangeiras de segurança, trataram de criar as suas. Uma foi fundada por Hasmat Karzai, primo do presidente; outra, por Rahim Quardak, filho do ministro da Defesa; uma outra pelos irmãos Papal, primos do presidente Karzai; e mais outra pelo "capitão-do-mato" Rouhoulah, "amigão" do presidente, além de alguns outros amigos da casa.

 

 

 

Cassação e ataque

 

 

 

Estas empresas, todas envolvidas pelo ambiente presidencial e governamental e funcionando com a "benção" de Karzai, propuseram às autoridades militares dos EUA e da Otan o seguinte: assumirem a segurança das tropas norte-americanas e da Otan quando estiverem em movimento, garantindo sua segurança contra o Talibã. Em outras palavras, gangues de bandoleiros protegendo as mais perfeitas máquinas de guerra do planeta.

 

Mas o pior ainda é que os governos dos EUA e dos países-membros da Otan, com o passar de alguns anos, verificaram as dificuldades operacionais, as perdas e as baixas que sofriam suas tropas e, assim, aceitaram a proposta das empresas afegãs de segurança privada. Assim, incorporaram sanguinários capitães-do-mato que haviam lutado ao lado dos EUA e da Otan em busca de pilhagens, reduzindo o número de soldados norte-americanos, necessários para outras ações.

 

A primeira missão que assumiu o capitão-do-mato Rouhoulah foi de acompanhar e proteger tropas de ocupação de Kandahar até a região de Helmant. A empresa dos irmãos Papal foi contemplada com o monopólio de prestação de serviços de segurança da estratégica rodovia Cabul-Kandahar, e assim por diante as outras.

 

Entretanto, assim que os afegãos verificaram que os EUA e a Otan estavam interessados em transferir a responsabilidade total pela segurança de suas tropas e instalações militares a empresas privadas de segurança, começaram a criar novas empresas. Em pouco tempo, 52 novas empresas de segurança haviam sido registradas no setor competente do Ministério do Interior de Afeganistão, enquanto, algumas dezenas de outras começaram a operar sem licença do governo, todas oferecendo seus serviços de segurança às autoridades militares dos EUA e da Otan.

 

Finalmente, EUA e Otan perderam a paciência e, no início de maio deste ano, com o pretexto da morte de um cidadão, pressionaram Karzai para cassar a licença de funcionamento da empresa dos irmão Papal, seus primos, que detinha o monopólio de proteção da estratégica rodovia Cabul-Kandahar. E Karzai cassou a licença. Mas, em menos de duas semanas, o Talibã atacou e incendiou comboio de caminhões da Otan que trafegava pela rodovia.

 

 

 

Polpuda comissão

 

 

 

O tráfego pela estratégica rodovia foi interrompido e, considerando que Kandahar é cabeça-de-ponte do Talibã, em alguns dias mais de mil caminhões militares norte-americanos e da Otan estavam bloqueados na rodovia, pondo em risco mortal o abastecimento das bases avançadas das forças de ocupação na extremamente crítica região de Kandahar.

 

Resultado: o presidente Karzai, novamente pressionado pelas autoridades militares dos EUA e da Otan, revalidou a licença de funcionamento da empresa de segurança privada dos irmãos Papal, seus primos, e assim a rodovia foi novamente liberada. "Mas o Comando Conjunto EUA-Otan desconfia que o próprio Karzai pagou ao Talibã para atacar o comboio e bloquear a rodovia, provando que a empresa de segurança privada dos irmãos Papal, seus primos, é insubstituível", escreve o jornal Liberation.

 

Apesar de tudo isso, os EUA encorajam por todos os meios a privatização das atividades de segurança em todo o Afeganistão, principalmente por duas razões. A primeira é que assim limita-se a responsabilidade política do Governo dos EUA e dos países-membros da Otan pelos crimes que cometem os mercenários das empresas de segurança privada, matando civis, torturando e assassinando presos e, saqueado bens.

 

A segunda razão é que os gigantescos volumes de recursos pagos ao setor de segurança privada constituem fonte de enriquecimento não só para as empresas de segurança privada, mas, também, para as autoridades militares dos EUA e da Otan que as contratam, em troca da infalível e polpuda comissão.

 

 

 

Georges Pezmatzoglu

 

Correspondente.

 

 

 

EUA buscam encerrar a guerra do Afeganistão e iniciar a do Paquistão

 

Islamabad - A situação no Paquistão agrava-se cada vez mais e, ao que tudo indica, o país caminha lenta, mas decisivamente, para o exemplo do Afeganistão, com o teatro de operações ampliando-se sucessivamente.

 

As forças norte-americanas e o governo de Islamabad estão de acordo de que o Paqustão se transformou em campo de treinamento e educação religiosa dos Talibã, que, em continuação, penetram no Afeganistão, dificultando e obstruindo as operações das tropas dos EUA e da Otan que buscam, desesperadamente, saídas para o imbróglio em que estão envolvidas, além de mostrar ao mundo alguns sinais de sucesso na guerra imperialista.

 

Mas, como se sabe, o Paquistão já dispôs seu território como campo de ação do Talibã, que já sedimentou sua presença na região há décadas, mantendo excelentes e permanentes relações com os mecanismos dos serviços secretos do país, desde a época em que atuava com "aliado" dos EUA.

 

As relações do Talibã com os serviços secretos do Paquistão datam desde a década de 1980, quando os governos do Paquistão ofereceram-lhe território para treinamento, com verbas da Agência Central de Inteligência (CIA) dos EUA, que visava manter a influência norte-americana e, particularmente, para derrubar o regime populista do país.

 

 

 

Com permissão

 

 

 

Como única saída para as forças de ocupação no Afeganistão, foi o vice-presidente dos EUA, John Biden, que primeiro dos primeiros sugeriu a ampliação do front de guerra ao Paquistão, para que os "combatentes" do Talibã sejam atacados em seus refúgios, a fim de a Otan mostrar seu sucesso no campo da batalha e não tiver que enfrentar um novo Vietnã.

 

Neste âmbito, a CIA pediu permissão do Governo do Paquistão para que as tropas norte-americanas de ocupação no Afeganistão pudessem atuar nas regiões das tribos, na fronteira entre os dois países, com objetivo aumentar a escalada de ataques contra maior número de regiões do Paquistão.

 

Na ocasião, o primeiro-ministro paquistanês, Youssouf Raza Gilani, tentou desmentir as informações, a exemplo de como havia feito anteriormente, quando desmentia que havia acordo com os EUA de operações com aviões comandados à distância nas regiões das tribos, sugerindo um suposto congelamento nas relações entre Islamabad e Washington e pedindo aos EUA para respeitarem a integridade territorial e a autonomia do Paquistão.

 

 

 

Parceria

 

 

 

O Governo do Paquistão já provou repetidas vezes que funciona como cabeça-de-ponte e não como adversário dos EUA. O mais recente característico exemplo foram as declarações do presidente do país, Asif Ali Zardari, que deu sinal verde às tropas norte-americanas para intervirem em seu país, ampliando o teatro de operações da guerra no Afeganistão, implorando por ajuda para "enfrentar os terroristas que infestam" seu país e exigindo a continuação da ocupação do Afeganistão.

 

Retornando ao Paquistão, durante a tragédia das inundações que assolam o país, Zardari - que abandonou seu povo em meio à catástrofe, para tirar férias em Londres - não hesitou em declarar que retornou trazendo ajuda e promessas de reconstrução, provocando a ira e a revolta popular.

 

Assim, ninguém ficou surpreso com o comunicado do governo de Islamabad de que "o Paquistão está desenvolvendo operações de guerra de larga escala contra o Talibã, nas regiões consideradas suas verdadeiras fortalezas", trazendo na memória as operações no Vale de Suat, que resultaram em centenas de mortos e milhões de refugiados. A volta das "operações de limpeza" contra o Talibã foi exigência básica dos EUA em troca da continuação de ajuda econômica ao Paquistão.

 

 

 

 
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