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Um batalhão sem preparo

 

Efetivo de vigilantes e vigias é dez vezes maior que o da Brigada Militar em todo o Estado. A grande maioria deles é de trabalhadores irregulares.
Renato Gava | Este endereço de e-mail está protegido contra spambots. Você deve habilitar o JavaScript para visualizá-lo.

O medo da violência fez surgir, nos últimos anos, um exército paralelo de segurança privada. No Estado, são cerca de 300 mil homens, dez vezes o quadro da BM. Mas praticamente dois terços desses profissionais não têm preparação, atuam sem controle e trabalham na clandestinidade.

- O cidadão que contrata um vigilante clandestino compra uma segurança que não existe - reconhece o presidente do sindicato da categoria da Capital (Sindi-Vigilantes), Evandro dos Santos.

- Para cada regular, há dois irregulares

Oficialmente, são 97,7 mil vigilantes aptos a exercer a profissão no Rio Grande do Sul - 14 mil deles em Porto Alegre.

São profissionais que fizeram o curso de 15 dias. Mas, de acordo com o sindicato e a BM, para cada segurança legal, existem pelo menos dois clandestinos. Nas cidades, de acordo com cálculos das duas instituições, o número de clandestinos cresce à medida em que o poder público não consegue dar conta do recado.

- PMs têm curso de dez meses

Em Porto Alegre, onde o número de PMs (3,5 mil) é de cerca de um para cada 428 habitantes, a quantidade de seguranças legalizados é de 14 mil. São quatro para cada brigadiano.

- De forma alguma o Estado pode abrir mão do trabalho de segurança pública. A preparação de um soldado demora dez meses, e a de um segurança, 15 dias. Por aí já dá para ver a diferença. Se for um segurança clandestino, então, nem se fala - argumenta o responsável pelo Comando de Policiamento da Capital (CPC), coronel Antero Batista.

De acordo com o coronel, a defasagem da Brigada, em Porto Alegre, é de mil PMs.

- Doze horas por dia

Aos 58 anos, mais de 30 deles de profissão, um vigia noturno que trabalha na Zona Sul de Porto Alegre admite:

- A gente trabalha com o coração na mão. A gente vê os caras desaforando até a polícia, imagina o que não sobra pra gente...

Ele só aceitou dar informações se não fosse identificado. A empresa na qual trabalha, revela, pertence a um PM e seria irregular.

- Sem arma nem banheiro

São 12 horas por dia, e a cada três dias de trabalho, recebe um de folga.

- Eles pagam em dia, não tenho do que reclamar. O salário é de R$ 650, mas com os descontos, transporte e outras taxas, sobra uns R$ 400 e pouco.

Ele garante trabalhar sem arma de fogo, mas admite ter um cassetete, de uso exclusivo para policiais. O artefato fica na guarita, ao lado de um vasilhame improvisado como penico (não há banheiro próximo), o qual ele precisa, depois de usar, jogar o conteúdo bem longe do bairro onde trabalha, a pedido da chefia.

O vigia diz que fez "um curso", do qual dá poucos detalhes, há cerca de dez anos. Desde então, jamais passou por uma reciclagem:

- Sei que o salário é pouco, mas não tenho o que fazer. E agradeço por me darem emprego, pois na maioria dos locais daqui, só estão empregando PM. Está difícil.

- Bico? Nem para criança!

Para o comandante do CPC, em geral os seguranças ajudam a BM.

- Mas os clandestinos são um perigo para toda a sociedade - adverte o coronel Antero Batista.

Sobre os bicos de PMs, proibidos por lei, ele usa uma frase bem conhecida na BM:

- Bico não serve nem para criança, estraga os dentes...

Em um estudo apresentado pelo Sindi-Vigilantes, 68% dos soldados e sargentos da BM fazem algum tipo de trabalho extra. O coronel diz desconhecer os dados.

- Mercado concorrido

O salário de cerca de R$ 1 mil, aliado ao status de poder que a função passa a alguns, leva muita gente a tentar uma vaga como segurança. Mas o presidente do sindicato, Evandro dos Santos, avisa:

- Está sobrando segurança no mercado, nem todos estão empregados. Até porque os clandestinos, que não pagam qualquer tipo de tributo, cobram mais barato. Isso sem falar nos PMs que fazem bico.

Para o dirigente, o setor cresce mais no Interior do que na Capital.

- Mau exemplo

Depois de duas tentativas de assalto, o dono de uma lancheria no Bairro Menino Deus resolveu contratar um segurança. Ele fez exatamente aquilo que o sindicato e a BM condenam: contratou um segurança ilegal.

- Na verdade, o primeiro que chamamos era um cara da vila (Lupicínio Rodrigues). Como ele conhecia os bandidos, conversou com eles, que nos deixaram em paz. Mas o próprio cara era cheio de problemas - conta o comerciante.

Ele e vizinhos pensaram em contratar uma empresa, mas o valor de R$ 3 mil foi considerado alto:

- Pegamos outro que apareceu, sem empresa. Vamos ver no que dá.

- Efetivos

Brigada Militar

- Estado: 26 mil

- Capital: 3,5 mil

Segurança regulares

- Estado: 97,7 mil

- Capital: 14 mil *

Seguranças irregulares*

- Estado: 200 mil

- Capital: 30 mil

Empresas do setor

- Estado: 800 (menos de 300 regulares)*

- Capital: 70 (cerca de 40 regulares)*

* Estimativa do Sindi-Vigilantes e da BM

Saiba mais
As funções
- Vigilante: trabalha armado. Pode atuar em escoltas, carros-fortes e bancos.
- Auxiliar de segurança: é o vigia, que não pode trabalhar armado. Há curso específico, mais curto do que o de vigilante.
- Zelador/porteiro: também não pode usar arma, e cursos de aprimoramento são opcionais.
Ingressando na profissão

Para ter a Carteira Nacional de Vigilante, expedida pela Polícia Federal, é necessário

- Ser aprovado em exame físico e psicotécnico - tem de ser refeito anualmente.
- Ter 21 anos ou mais.
- Não ter antecedentes criminais.
Curso
- É realizado em 15 dias, em escolas aprovadas pela Polícia Federal. A reciclagem, a cada dois anos, é obrigatória.
- Os alunos aprendem técnicas de armamento e tiro, defesa pessoal, socorro de urgência, prevenção de incêndio, Direito Penal, Relações Humanas no trabalho e segurança bancária.
Salário
- O piso é R$ 837, mais 16% de taxa de risco de vida, por jornada de sete horas e 20 minutos.
Vigia
- O curso é realizado em dez dias.
Riscos
- Em caso de morte ou invalidez, os encargos trabalhistas como FGTS, INSS e Pis serão de responsabilidade do contratante.
- Lesões corporais ou mortes, ocorridas durante o serviço, poderão ser de responsabilidade do contratante o serviço.
O que fazer
- Ao contratar um segurança é preciso consultar o Grupamento de Supervisão, Segurança e Guarda da BM, que controla o setor no Estado.
- Telefone: 3231-4312. E-mail: Este endereço de e-mail está protegido contra spambots. Você deve habilitar o JavaScript para visualizá-lo. .

 

 
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