Entrevista com Associado
Entrevistado Sr. Vinícius Domingues Cavalcante
01) Há quanto tempo é profissional de segurança?
Eu comecei na Segurança Pública em março de 1985. Na Segurança Privada, meu primeiro trabalho começou em julho de 1987. 02) Qual sua área de atuação?
Desde março de 1985, eu integro a Diretoria de Segurança da Câmara Municipal do Rio de Janeiro, como Agente de Segurança do Legislativo, cargo efetivo, admitido por concurso público. Uma vez que a minha escala de serviço permite, eu acumulo o exercício das minhas funções com o trabalho na segurança privada. Em 1985, concluí o curso de supervisão de segurança do trabalho no Centro Federal de Educação Tecnológica (em parceria com a antiga Fundacentro); porém, a atividade de “safety” não me seduziu. Na minha carreira profissional, a segurança pública sempre caminhou lado a lado com a segurança privada. Durante esses vinte anos de serviço na segurança privada, trabalhei como prestador de serviço em empresas de vigilância (como coordenador, gerente operacional e assessor especial de diretoria), atuei como instrutor de efetivos de segurança (Agentes de Segurança Pessoal, Vigilantes e Supervisores) em Centros de Treinamento Profissional, bem como, enquanto cliente, gerenciando segurança de algumas empresas. Da mesma forma, também prestei consultorias no que se concerne à implantação e ao treinamento de seguranças executivas, desenvolvi planejamentos de segurança para empresas e condomínios residenciais etc.
03) Há quanto tempo é membro da ABSEG?
Sou membro fundador. 04) Ocupa algum cargo dentro da associação? Qual?
Não 05) No seu entender, qual a principal função da ABSEG?
-Congregar profissionais que, até bem pouco tempo, não se conheciam ou se falavam. -Promover a disseminação de conteúdos técnicos modernos e abalizados, através da publicação de artigos, manuais ou pela realização de cursos, congressos e seminários alusivos à atividade de segurança, quer nas diferentes regiões do pais como em nível nacional.
-Apresentar-se para a opinião pública como um pólo referencial de excelência técnica na área da segurança, auxiliando a redefinir conceitos, mudar os parâmetros da população em face da atividade. Mostrar ao homem comum que “Segurança tem ciência”, “que não é todo mundo que entende de segurança” etc.
-Buscar, junto ao poder político legislativo, a elaboração de leis mais adequadas para a regulamentação do segmento.
06) Como podemos aumentar nossa participação em seu Estado?
A realização de um encontro, para uma palestra com tema de interesse e um almoço ou jantar (de adesão) posteriormente ao evento, já seria um excelente começo. Embora seja um costume dizermos que nesse ramo de atividades todo mundo se conhece, é fato que ainda há muitos profissionais que não se conhecem e que poderiam somar tecnicamente e aumentar o peso político do segmento. Uma solução interessante seria a de solicitar aos mais qualificados profissionais de diferentes ramos do nosso segmento que preparassem palestras de 1:30h sobre suas respectivas expertises e que as expusessem para os demais companheiros, com um tempo alocado para responder as perguntas dos demais profissionais.
Posteriormente poderíamos partir para a realização de um seminário, nos moldes do COBRASE; tudo para divulgar a ABSEG aqui e atrair para ela mais profissionais.
07) Qual a visão dos demais profissionais de segurança sobre a ABSEG?
Não sei se poderíamos responder a essa pergunta de forma generalista. Há um segmento de profissionais, normalmente cultos, bem formados e bem colocados profissionalmente, que conhecem a nossa entidade, seus associados e utilizam-la como canal para uma profícua troca de idéias. Estou certo que tais profissionais se sentem representados pela ABSEG, independentemente da região do país a que pertencem. Sinceramente, não poderia falar pelos demais, até por não ter indagado a outros profissionais especificamente sobre o tema; porém, estou certo de que – mesmo congregando em seus quadros uma elite profissional brasileira – a ABSEG deve se constituir numa entidade que atinja também aquele elemento que busca, às vezes com notável dificuldade, o aperfeiçoamento no ramo da segurança. Não sei se isso acontece em São Paulo, mas por certo não no Rio e acredito que também não na maioria das regiões onde temos representação.
Veja que não estou pretendendo criticar o Peixoto ou o Silva Rocha, companheiros diretores regionais nessas duas gestões, até pelo fato de que eu próprio jamais os procurei para discutir o assunto, oferecer-lhes ajuda ou fazer diferente. A minha própria resposta à pergunta já expressa uma reflexão e uma autocrítica. Aqui no Rio, os profissionais não se reúnem sob a nossa bandeira; e se não estão mobilizados...
No meu entender, devemos nos constituir numa ferramenta que propicie uma elevação no padrão técnico profissional das pessoas que, assim, aderirão à ABSEG em maiores números e com cada vez maior entusiasmo.
08)Além de benefícios, investimos no aperfeiçoamento técnico através de cursos. Quais seriam as áreas mais carentes de informações?
A minha experiência me diz que todo e qualquer curso, sobre quase todo tipo de vertente específica da segurança tem enorme potencial para atrair público. Os profissionais são carentes de instrução técnica e sempre que lhes é dada oportunidade, afluem para todo tipo de curso, palestra ou seminário. Da Segurança Pessoal à Aeroportuária; do prevencionismo contra as fraudes de varejo às normatizações e planejamentos contingenciais, do ISPS Code às metodologias para análise de riscos... tudo interessa. O principal problema é que as empresas, em sua maioria premidas por uma carga tributária que lhes achata a lucratividade, pouco investem no aprimoramento do homem. Há muito daquele papo de “buscar o profissional já pronto”, supostamente com todo o conhecimento necessário à desincumbência de suas missões. Assim sendo, o profissional que almeja o crescimento vai buscar esse aperfeiçoamento, pagando do próprio bolso e isso nem sempre é viável.
Eu sei que “Know-how” não custa barato, mas, com o custo de vida de hoje em dia, tendo de pagar prestação de imóvel (ou aluguel), condomínio, prestação do carro, colégio particular dos filhos, plano de saúde, comida, combustível, luz, gás, telefone, telefone celular, curso de inglês, basquete, natação, livros técnicos, prestação do cartão de crédito... como o profissional vai poder alocar recursos para participar de uma pós graduação, como essa excelente, da Universidade Comillas que custa mais de R$15.000,00, se a empresa não pagar? Mesmo com bolsa, fica difícil!
Embora haja empresas que hoje custeiam os estudos daqueles coordenadores ou gerentes de segurança que nela trabalham há muito tempo, as empresas do segmento de segurança privada mesmo, pouco investem em cursos para os seus funcionários.
09) Quais os cursos, na sua visão, que mais contribuirão para o desenvolvimento dos profissionais de seu Estado?
Sinceramente, sem querer parecer evasivo, ou mesmo repetitivo, estou certo de que todo o curso que pudermos proporcionar aos profissionais daqui será útil e oportuno. 10) Universidades de todo o Brasil têm investido no curso de Gestor de Segurança. O RJ tem tido uma grande procura por este curso?
Sim, a Universidade Estácio de Sá (precursora de tais cursos nacionalmente, cuja primeira turma começou em junho de 1999 e formou-se cerca de dois anos e meio após) tem graduado sucessivas turmas de gestores, tanto de segurança privada, quanto, posteriormente, de segurança pública. Hoje é visível que o público que atua na área vem buscando a graduação universitária como mais um diferencial técnico da carreira. 11) As empresas e clientes finais têm procurado profissionais com alguma formação acadêmica?
Sim, mas os salários ainda estão muito aquém do que seria esperado, ou do que, por exemplo, se pratica num mercado mais sofisticado, competitivo e exigente como São Paulo.12) Como o mercado tem se comportado em relação às soluções oferecidas pelos profissionais, versus a insegurança existente?
A primeira consideração que se deve fazer, antes de responder tal pergunta é analisar algumas das razões da insegurança existente e se a nossa legislação vem ao encontro da necessidade de proteger bens e pessoas ou não! Sem querer parecer dono da verdade ou encrenqueiro, eu diria que o profissional de segurança privado só não pode oferecer melhores soluções para a segurança em nosso país porque tal eficácia não interessa aos interesses inconfessáveis de autoridades que lucram com a sanha da violência e da criminalidade. Em nosso país, a segurança privada é francamente limitada nos mais diversos fatores e todas essas limitações abrem espaço para que os agentes da segurança pública atuem, veladamente, complementando, eles sim, as lacunas que o segmento privado não consegue abranger. Por mais que se planeje, que se desenvolvam trabalhos de ordem técnica, se implementem recursos tecnológicos e de inteligência, volta e meia nos vemos limitados ao recurso da contratação de profissionais de segurança pública, que vão trabalhar no horário de folga.
Eu não estou falando aqui contra a sinergia do público com o privado, de forma alguma. Eu próprio trabalho num órgão público legislativo municipal e hoje estou cedido a um outro órgão de segurança pública estatual, desenvolvendo função específica no âmbito do treinamento profissional e de inteligência. Acredito piamente que ambos os setores devem fazer o melhor possível em prol da segurança das pessoas e instituições neste país, contra os inimigos da sociedade (sejam eles traficantes de drogas, criminosos comuns, terroristas, membros dos chamados "movimentos sociais" ou políticos desonestos) e defendo tais posições nos artigos que escrevo, em entrevistas às rádios CBN e Bandnews e sempre que possível nas minhas entrevistas de TV na Record, Globo e TVE Brasil. Apenas não posso me furtar de perceber que a legislação é falha ou omissa, apenas para permitir que aqueles que atuam no segmento da segurança pública, notadamente policiais e militares, possam alugar-se e suas armas (e/ou também as armas do Estado), carteiras e muitas vezes também aos seus bancos de dados reservados; tudo a fim de proporcionar um apoio que a atividade de segurança do meio privado só necessita em razão das limitações que lhe são impostas no âmbito da própria legislação.
Nós não tocamos nesse assunto e de certa forma ele é tratado como um tabu. Mas qual seria a razão de precisarmos manter policiais em certas funções de segurança privada, se a legislação permitisse às empresas gozar de certa autonomia e empregar armas de capacidade comparável às armas de porte de calibre hoje restritas aos agentes de autoridade pública. É para falar sério, vamos falar sério! Muitas empresas buscam homens com experiência militar pregressa: soldados, cabos e sargentos que, tendo passado vários anos nas Forças Armadas, executavam missões de segurança de dignitários com regularidade, portando armas de tipo e calibre proibidos para o uso civil. Ora, a serviço da Pátria eles empregavam pistolas 9mm e .45”ACP; depois, na iniciativa privada, apenas lhes facultam armas cujo desempenho está sempre muito aquém daquelas empregadas pelos seus potenciais adversários da criminalidade. Porém, o poder público, que, no Rio de Janeiro, durante os dois últimos governos, formou policiais civis e militares com menos de 50 tiros disparados, libera para tais efetivos pistolas calibre.40S&W!
Isso tudo sem falar das empresas ou seguranças clandestinas que empregam somente policiais e suas armas pessoais... Em situações como essas (e algumas outras) ninguém conseguiu me provar que não haja interesse de que a legislação deva ser mantida fraca o suficiente para que se possa lucrar com isso.
Por certo eu não estaria sendo justo, caso não admitisse que tal situação já foi muito pior; porém, convenhamos, ela ainda está muito longe do satisfatório. Assim como em outras facetas da vida nacional, em que as soluções dos problemas estão encobertas por razões inconfessáveis, enquanto o objetivo maior for o de assegurar privilégios (ainda que uma pequena “boquinha”) e não o de proporcionar efetiva segurança à população, nossa segurança privada jamais poderá explorar todas as suas potencialidades.
13) Qual a principal queixa dos profissionais de seu Estado?
Acredito que seja a falta de regulamentação adequada para o nosso segmento.14) Na sua visão qual a melhor forma de atender a este anseio?
Através da promulgação de uma legislação moderna, fruto da concepção de profissionais que efetivamente atuem no segmento da segurança privada.15) A ABSEG, através do deputado federal William Woo, apresentou projeto de lei que regulamenta a atividade do profissional de segurança, projeto 2198-7. qual é sua opinião sobre este tema?
Particularmente eu ainda não li o projeto do Deputado William Woo. Não conheço a trajetória do referido parlamentar, mas já o vi em outros eventos do segmento e seu discurso não me remete ao carreirismo ou a promessas vazias. Por certo o presente projeto representa um avanço em face da legislação existente e merece o nosso apoio. 16) Haveria empenho de deputados de seu Estado para aprovação deste projeto?
Não sei quanto aos Deputados Federais da bancada carioca, porém sou particularmente descrente quanto à perspectiva de obtermos apoio político e explico a razão. Historicamente, ao longo dos últimos quase trinta anos, eu já vi algumas outras iniciativas de regulamentar nossa atividade que não lograram êxito. Nos anos 80, profissionais altamente gabaritados como o militar da reserva (CMG da Marinha do Brasil), consultor e empresário Francisco Gama Lima Neto (da Agents Segurança), os Coronéis da reserva Mauro de Carvalho (PMERS) e Gustavo Borges (FAB), o advogado Zeno Pereira, CPP, defendiam a criação da função técnica no âmbito da segurança privada e chegaram a conseguir que um projeto nesse sentido fosse apresentado na Câmara Federal. Infelizmente não consegui encontrar referência ao mesmo nos exemplares que me restaram da antiga revista SEGURANÇA, editada entre 1981 e 1983. No início da década de 90, um grupo de gaúchos da área de Segurança Patrimonial também vislumbrava a necessidade de normatização legal para a segurança patrimonial, descontente de que empresas vinham empregando erroneamente o Técnico em Segurança do Trabalho (único profissional regulamentado no nível técnico), para o exercício da chefia da Segurança Patrimonial. Capitaneados pelo ilustre Cel. Luiz Iponema, engajaram-se na elaboração de um projeto audacioso, visando a criação, regulamentação e formação do Técnico em Segurança Patrimonial. Segundo me disse o Velho Mestre, tal projeto tramitava desde 1991 na Casa Legislativa, aparentemente sem resultado até hoje.
Não estou com isso, dizendo que o projeto do Deputado William Woo vá pelo mesmo caminho. Apenas que eu não creio que nossos representantes no Legislativo Federal venham a reconhecer a importância da iniciativa do nobre Deputado paulistano e dar-lhe a prioridade necessária para entrar na pauta de votações.
Só para ilustrar o desinteresse reinante quanto se trata de apreciar assuntos dessa natureza, há cerca de um ano e meio, o nosso companheiro Wilmar Peixoto, Diretor da ABSEG, sabendo que trabalho numa Casa de Leis, me solicitou sondar parlamentares do legislativo estadual que pudessem apresentar e defender um projeto para a regulamentação do exercício da atividade de segurança privada no Estado do Rio de Janeiro, o qual, posteriormente, poderia impulsionar a aprovação de um projeto semelhante no âmbito federal. Minha tristeza foi perceber que, mesmo aqueles que se dispuseram a nos receber para apreciar o esboço do eventual projeto, o fizeram sem qualquer entusiasmo, e não retornaram meus contatos telefônicos e de e-mail posteriores.
17) Haveria mobilização dos profissionais do RJ para aprovação deste projeto?
Sim, poderemos obtê-la, mas para isso estou certo de que primeiramente deveríamos “apresentar” a ABSEG à grande massa de profissionais do Estado, os quais não a conhecem suficientemente bem e talvez não compreendam a vantagem de unir-se a ela.Entrevista Cel. Menezes






